terça-feira, 1 de setembro de 2009

Arco Iris: A caravana da paz

Os guerreiros do Arco-íris

Conta uma lenda indígena que, chegaria um tempo em que estaríamos rodeados por tormentas, guerras, fome e desespero. Nesse momento só duas saídas seriam possíveis à humanidade: A primeira seria a sua total destruição. E a segunda o aparecimento dos "Guerreiros do Arco-íris".
Estas pessoas viriam de várias nações, e teriam como ideal a paz e a harmonia entre os povos e culturas, na tentativa de provocar uma mudança estrutural na realidade social vigente, através da arte. Segundo a lenda, eles usariam as representações artísticas para superar qualquer fronteira e mostrar ao mundo a fórmula da paz.
Será que esta profecia se cumpriu?

Foi inspirado nesta lenda, e em muitas outras contadas pelo seu pai, que o mexicano Alberto Huz criou em 1996 a Caravana Arco-íris. O pai de Alberto foi Arqueólogo e um grande aventureiro. Ensinou ao filho a importância de vivenciar outras culturas.
A Escola da Vida, como é chamada pelos integrantes, partiu do México em julho de 1996, com 15 pessoas de cinco nacionalidades diferentes, sem data para voltar. "Nós tínhamos um destino: chegar à Terra do Fogo - no Chile, extremo sul do continente americano – e uma idéia: absorver e apoiar as diversidades culturais e promover a arte, servindo como mensageiros" afirma Alberto.

Até chegarem ao Brasil foram 10 anos de descobertas e adversidades pela América Latina. "O segredo para seguir caminhando é o amor incondicional à arte. A arte é o nosso passaporte. Para nós tempo é arte e não dinheiro. Trocamos nossa arte por comida, por estadia e tudo que precisamos, e até mesmo por dinheiro para suprir às necessidades do grupo", explica Alberto.
Alberto é um mestiço de índios com espanhóis e cultiva a tradição nômade dos indígenas, ele diz que o aspecto mambembe da caravana, através dos espetáculos circenses e teatrais, permite atravessar fronteiras culturais, políticas, econômicas, ideológicas e outras, em todos os lugares. Para ele viajar é uma necessidade humana, fixar-se em cidades é uma invenção cultural contemporânea. "Todos sonham em viajar e serem livres", completa.

Alberto é o único remanescente do projeto inicial da caravana. Hoje são 25 membros, entre eles quatro brasileiros. Convivem como uma tribo e têm direitos e deveres, mas garantem ter individualidade preservada, dentro do possível.
Verônica Sacta, esposa de Alberto, conta que há cinco anos, quando a Caravana Arco-íris esteve no Equador, se encantou com o projeto. "Era o que eu acreditava: a diversidade das cores, raças e pensamentos, convivendo em harmonia, não pensei muito, peguei minhas duas filhas e parti", diz Verônica com firmeza.

Verônica diz que as paixões por pessoas, objetos e lugares acontecem a todo desembarque, mas para os jovens é mais difícil deixar estas coisas para traz, principalmente os amores. Ela diz que muitos já desistiram de seguir com a caravana, e mais desistirão. Mas sempre haverá alguém para chegar.
Ela dá o exemplo de suas filhas: "Se apaixonam a toda hora, foi assim no Chile, São Paulo, Belo Horizonte e por isso querem sempre ficar. Elas ainda não se acostumaram e se apegam a tudo", relata. Verônica explica que um dia serão adultas e decidirão o próprio destino, mas espera que isso demore um pouco.

"Já passamos por diversas situações perigosas, como a guerrilha na Colômbia, os desertos no Chile e México e fome no semi-árido brasileiro. Mas nada me faz desanimar. Nossa missão é levar a alegria aos lugares mais remotos e nossa recompensa é o aplauso. E isso eu não deixarei de fazer."Afirma Alberto Huz.

Parece impossível para os dias de hoje, mas é real. Três ônibus, algumas tendas, pessoas de vários países; atores, escritores, dançarinos e palhaços. Uma família; uma tribo. Crianças que se divertem com a descoberta e se entristecem com a partida.
A diversidade das cores, dos jeitos, das línguas, e em comum a idéia de um mundo diferente e melhor. Alberto Huz e sua trupe são representantes vivos e atuantes do artista mambembe moderno, e sua caravana um vestígio de uma arte que não quer acabar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Memórias de um burocrata

Mais um burocrata atravessa a rua, um bom dia é a chave para abrir as portas da consciência, José Bonifácio, 85 anos de pura sapiência.
Entre as árvores e os muros de concreto da Zona Sul da Capital mineira, o puxador de carroça de papel desbrava a Cidade Viva que dorme debaixo da poeira de asfalto.

O descendente de italianos, com seus olhos pequenos, côr de céu, leciona sobre a metáfora da realidade e coloca a memória como fonte vital para a existência humana.
"O único e verdadeiro elo entre a vida e a morte é a memória, ou a consciência de qual papel representamos para a sociedade e para nós mesmos, pois a lembrança do que sou é a única prova de minha existência", comenta o velho caçador de papéis.

E ele segue o caminho da verdade que escolheu. E eu fico com mais este feixe de luz que não posso tocar sem me queimar, e me queimo. Perceber que o valor de cada instante constrói o conjunto de acontecimentos que dá forma aos nossos pensamentos e procedimentos é essencial.
Acreditar que o mundo está apto a nos receber de braços abertos é ilusão. Praticar as verdades nas quais acreditamos é um bom começo, pensar e falar e fazer, e se não formos reconhecidos, mesmo assim, teremos a serenidade do Herói com o dever cumprido, mesmo a morrer com o gosto da vitória na garganta.


Saulo Martins – 28/01/2008 – Belo Horizonte

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Mambembe: Uma Cultura Viva


Quem nunca sonhou em viajar pelo mundo?
Com um circo, uma caravana de teatro, ou até mesmo sozinho. A necessidade de ser livre impulsiona algumas pessoas a escolherem o mundo como casa. E muitas vezes o caminho encontrado para realizar este sonho mágico é a arte.
Para alguns pesquisadores, bufões (comediantes) e saltimbancos (atores itinerantes) já acompanhavam as tropas de guerra na Europa Central, no Séc. XVI. Eles possibilitaram a abertura do teatro Europeu para o mundo.
Artistas como Thomas Sackville e Robert Browne percorreram o continente por várias décadas e deram início às grandes companhias artísticas dos séculos XVII e XVIII, na Inglaterra.
Adeptos do nomadismo criaram seus espetáculos para sobreviver e se espalharam, transformando-se nos precursores de uma cultura, chamada Mambembe.

De acordo com o pesquisador teatral Décio de Almeida Prado, alguns grupos mambembes chegaram por volta de1574 ao Brasil. Ele observa que eram, em maioria, ciganos e ateus que fugiam da Inquisição Católica.
Estes remanescentes dos grupos europeus traziam consigo espetáculos de variedades e literalmente carregavam a casa nas costas. E não só a casa: os cenários das peças, seus figurinos, maquiagem, etc.

Os saltimbancos andavam em carroças e sempre em bandos - as trupes. É a essência de uma cultura e um novo jeito de viver e contestar. Dessa necessidade de mudar e representar cria-se várias formas de espetáculos.
Décio de Almeida relata que no séc. XIX surgem desta cena histórica o circo, as Caravanas de Teatro e os movimentos de Arte Alternativa do século XX.

Living Theatre: Uma esperança, uma ameaça.

Na primeira metade do século XX eclode um processo de contracultura no mundo, principalmente nos Estados Unidos e Europa.
O Brasil absorvia as idéias subversivas que vinham do outro lado do Atlântico, ao mesmo tempo em que promovia uma arte nacionalista, inspirada nos intelectuais da Semana de Arte Moderna de 1922, cujas idéias ainda pairavam no ar.

"Os conceitos da contracultura abordavam a aceitação das diversidades culturais e rejeitavam a padronização dos valores, promovendo a Arte Mambembe. Considerando primordial a interação com os expectadores, a liberdade do pensamento político-social e a libertação sexual". É o que diz o secretário de Identidade e Diversidade Cultural, do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti.

Ele conta que naquele tempo o Brasil possuía grupos de vanguarda no teatro - como as caravanas de Procópio Ferreira e Tônia Carreiro - que buscavam mudanças na linguagem e na forma teatral. Durante as décadas de 50 e 60 eram promovidos festivais, oficinas e discussões.
"Mambembar, ou viajar com Companhias Teatrais, pelo interior tornou-se comum. Nesse contexto desembarca no país no início da década de 70, em plena ditadura, o Living Theatre, o maior grupo mambembe da época", exalta Mamberti.

A escolha do nome remonta o ano de 1947. A vida enquanto arte, um teatro Vivente, foi isso que pensaram seus fundadores, Judith Malina e Julian Beck. O living inaugurou o movimento do teatro off-Broadway, como uma alternativa artística ao teatro comercial da Broadway.

Sérgio Mamberti relata que o grupo chegou aqui com uma visão lisérgica da política. E visualizavam o Brasil como um país com perspectivas de futuro. Mamberti já era ator e morava em São Paulo, onde conheceu os integrantes do Living e chegou a hospedar quatro deles em sua casa.
"Minha casa virou um ponto de encontro dos artistas que estavam em São Paulo. Todos queriam conhecer Beck e sua trupe. Aconteciam reuniões, pequenas apresentações e muito bate papo", diz Mambeti, com saudosismo.

Segundo Mamberti, Beck chegou a lhe dizer que toda fonte de repressão se deriva da repressão sexual e eles vieram ao Brasil propor a libertação sexual.
Mamberti - Mas quando o encontrei pela primeira vez e dei-lhe um beijo na boca ele horrorizou, pois não esperava tamanho atrevimento da minha parte -, Beck apesar de chocado gostou do jeito caloroso do povo brasileiro, tanto que o grupo incorporou alguns atores ao elenco, como Paulo Augusto de Lima e Ilion Tróya.

Tróya cursou Ciências Sociais e ainda hoje participa de movimentos artísticos no Brasil e EUA. Em entrevista por email ele contou que recomendados por amigos do Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez, o Living mudou-se para Ouro Preto em março de 1971, com uma vaga esperança de participação no Festival de Inverno.
Mas como não foi viável, financeiramente, participar do festival, planejaram atuar paralelamente e representar em praça pública, um espetáculo/oficina de teatro sobre a estrutura social do sistema capitalista.

"Fizemos um projeto, intitulado O Legado de Caim, que se iniciou em São Paulo e tratava da herança de violência a qual todos somos sujeitos, no intuito de encontrar possibilidades de libertação", conta Troya.
Eles queriam atingir, por meio de uma estratégia cultural, os vários extratos da sociedade, envolvendo, sobretudo estudantes, artistas e trabalhadores, numa campanha de "invadir docemente" uma cidade e despertar seu povo para diversas ações que estimulassem diálogo nas praças sobre os temas levantados..

A campanha do Legado de Caim seguia adiante. No entanto, tudo se interrompeu bruscamente no primeiro dia do Festival de Inverno, com a prisão da companhia inteira na casa que haviam alugado detrás da Igreja de São Francisco.
Segundo Tróya o departamento de ordem política e social (DOPS), o braço forte do regime militar, invadiu a casa em busca de armas ou outros materiais subversivos. "Nada mais encontrando além da farmácia pessoal de cada membro de uma companhia de 20 pessoas. Enquanto permanecemos presos em Belo Horizonte, na casa em Ouro Preto, sob custódia policial, foram encontrados 2 quilos de maconha, dois dias depois", relembra Tróya.

Ilion Tróya fala que no dia em que o DOPS (hoje DEOESP) os conduziu até o Tribunal com aquele povo todo, reunido para o Festival, que veio acompanhar as audiências constituiu talvez o "espetáculo" mais vivo do Living Theatre no Brasil.
Os Diários da Prisão de Judith Malina começaram a ser publicados no jornal O Estado de Minas. No Brasil e no mundo a reação foi imediata, pessoas como Jean-Paul Sartre, Jean Genet, Samuel Beckett, Pier Paolo Pasolini, Bernardo Bertolucci, Arthur Miller, Alan Ginsberg, John Lennon e também Ruth Escobar, Sérgio Mamberti, Vivien Mahr, Martha von Jentschick e outros lutaram pela libertação dos atores.

O último espetáculo da companhia Living Theatre no Brasil foi montado na Colônia Penal em Ribeirão das Neves, "Sonhos dos Prisioneiros" (1971), que foi feito a partir de textos escritos por alguns dos "companheiros de infortúnio" como eles costumavam se considerar. Logo chegou a ordem de expulsão da companhia, assinada pelo presidente Garrastazu Médici, e assim eles partiram de volta aos EUA.

Judith Malina e Hanon Reznikov, seu atual esposo e co-diretor da companhia, continuam o trabalho do Living. "Neste momento estamos ensaiando a remontagem da peça "The Brig", com que pretendemos inaugurar nesta primavera, um novo espaço do Living Theatre em Nova York, no endereço 19-21 Clinton Street (Houston e Stanton Streets) em Manhattan, neste ano em que comemoramos os 60 Anos da nossa fundação, pois o espetáculo não pode parar", completa Ilion Tróya.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Democracia participativa já!

O atual quadro político brasileiro, com denúncias de fraudes e complexos esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro, entristece a quem se preocupa com o futuro desta Nação, que tropeça na ganância de alguns de seus importantes homens públicos. A Reforma Política soa, para alguns, como possível solução parcial da dinâmica de corrupção que se instalou em setores do Parlamento, Executivo e Judiciário e também do empresariado, chegando a níveis insuportáveis. Em uma economia globalizada onde "o Estado é mordomo do mercado", conforme definiu Manuel Castells, é preciso um sistema de representação política eficaz, com processo eleitoral transparente e cotidiano, para que o povo seja participante efetivo nas decisões governamentais, nos níveis federal, estadual e municipal.

Qualquer mandato, outorgado pela soberania popular, deve ser controlado pelos mecanismos da democracia participativa, a Reforma Política, em discussão no Congresso Nacional, trata de questões sobre a democracia representativa, mas é importante acrescentar a discussão da democracia participativa, pois ambas se complementam.

É preciso distinguir a reforma política proposta pela OAB, a do governo e do Congresso e das oposições. Nos termos de Fábio Konder Comparato, a proposição da OAB pretende corrigir distorções referentes à legitimidade democrática dos mandatos, mediante a ampliação dos instrumentos da democracia participativa, como o referendo e o plebiscito, e estabelecer mecanismos eficazes de controle sobre os agentes públicos. Por outro lado, o governo e aliados querem só garantir a governabilidade, ao discutir pequenas e polêmicas reformas como a cláusula de barreira, lista fechada de candidaturas e financiamento público de campanhas, sujeitas ao crivo do Supremo Tribunal Federal. E as oposições querem manter as regras do jogo para se reelegerem.

A descrença na política e nos políticos não é nova, e no caso brasileiro foi potencializada, historicamente, com o veto à Emenda Dante de Oliveira, as Diretas, a morte de Tancredo Neves e o governo Collor. A mudança das regras do jogo democrático com a votação da emenda da reeleição no governo Fernando Henrique Cardoso diminuiu a confiança do povo nos políticos profissionais. A tendência no Brasil é de uma democracia delegativa, o cidadão vota e delega sua soberania ao representante escolhido até as próximas eleições. No entanto, timidamente, estão se desenvolvendo movimentos no sentido de apontar a necessidade de fiscalização do exercício público dos representantes. A partir dessa fiscalização, tornando mais transparente o processo político nacional, com a participação do cidadão, haverá possibilidades de se combater a corrupção e os demais desmandos observados no exercício do poder.

No que diz respeito aos instrumentos de manutenção da democracia, eles não se tornaram obsoletos, contudo, para tratar esta questão, devem ser seguidos os ensinamentos de Anthony Giddens, que analisando o contexto pós-colapso do socialismo, constatou que seria necessário "democratizar a democracia no mundo", isto é, fazer com que a democracia funcione de forma efetiva. Seguindo a mesma linha de pensamento, quanto à globalização e o fim da bipolaridade ideológica, após o colapso do socialismo constituiu-se uma nova ordem mundial, que se esperava multipolar, mas que tem sido unipolar e apresenta novas questões políticas importantes.
A exacerbação dos nacionalismos, a força dos fundamentalismos e as preocupações com o meio-ambiente, entre outras questões importantes, são substitutos do debate anterior entre a esquerda e a direita. É importante frisar que, no quadro dos países do Terceiro Mundo, o debate bipolar persiste com maior ou menor intensidade. Veja-se, por exemplo, a tentativa de Hugo Chávez de criar um "novo socialismo" na América Latina.
BH, 30/06/2007
Saulo Martins

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Para começar...

Neste prólogo, pretendemos estabelecer um contrato, e este conterá apenas uma regra: Não nos furtaremos em publicar as idéias dos nossos colaboradores, a não ser que já nos digam o que é de senso comum, exigimos originalidade, criatividade e tesão nas palavras que constarem nesta CACHOLAABERTA, pois estas ditas devem pretender alcançar o coração e não a mente dos leitores. Contestar a literatura, gramática, ciência, política, religião, história, e todas as outras aflições do humano, moderno ou não, este é o único dogma que nos direciona. Todos os temas em caixa baixa, em uma relação, ao mesmo tempo, micro e macro entre os significados e a realidade de cada assunto. Gostaria aqui de não prolongar-me, deixo-os agora com algumas palavras de José de Alencar escritor do sec. XIX, que no prólogo do romance "Iracema", de 1865, entre outras, ditou a seguinte mensagem:
"Muita coisa me ocorre sobre o assunto, que talvez deverá antecipar aleitura da obra, para prevenir a surpresa de alguns e responder as observações ou reparos de outros. Mas sempre fui avesso aos prólogos; em meu conceito eles fazem á obra o mesmo que o pássaro à fruta antes da colhida ; roubam as principais do sabor literário. Por isso me reservo para depois..."

Agora exponho-lhes as minhas víceras com este breve e animado conto inverso:
Um prelúdio fugaz sobre o cheiro do fogo

De repente ele pula do cavalo, arma sua faca em posição de ataque e desfere golpes no ar. Seu oponente, naquele assombro repentino, apanha o punhal e aceita o duelo. Enquanto isso, nós passávamos na garupa de um desconhecido comendo pão com lingüiça, especiaria típica do lugar chamado Chapada, situado nas beiradas da famosa Ouro Preto de Minas.
O cheiro da carne assada tomava nossas ventas, o sexo emanava dos movimentos de dança profanados pelas belas e magras jovens da região. No rebolar da faca e no cortar doce da dança descobri a voracidade do fogo infernal que queimava por baixo daquele solo. Agora entendo porque a fumaça densa daquela tarde de sol tinha cheiro que não era de terra.
Vi como um espectador circense àquela batalha que se passava em meio às comemorações do dia de páscoa, naquele vilarejo de uma realidade distante, que possivelmente não verei mais. O sangue não me veio à boca por acaso. Senti em minhas veias cada corte letal e gozei muitas vezes com os sorrisos assustados dos olhos que me afrontavam.
Se por acaso alguém disser que não foi assim não acreditem, pois eu quis tudo errado, misturei cada coisa com o seu oposto, apaguei a parte mais bonita e sincera, simplesmente deletei. Ficou somente averdade. E, não consegui colocar-me no seu lugar, pois o meu lugar eunão sei onde é.

Saulo Martins – BH em 29/06/2007