terça-feira, 9 de outubro de 2007

Mambembe: Uma Cultura Viva


Quem nunca sonhou em viajar pelo mundo?
Com um circo, uma caravana de teatro, ou até mesmo sozinho. A necessidade de ser livre impulsiona algumas pessoas a escolherem o mundo como casa. E muitas vezes o caminho encontrado para realizar este sonho mágico é a arte.
Para alguns pesquisadores, bufões (comediantes) e saltimbancos (atores itinerantes) já acompanhavam as tropas de guerra na Europa Central, no Séc. XVI. Eles possibilitaram a abertura do teatro Europeu para o mundo.
Artistas como Thomas Sackville e Robert Browne percorreram o continente por várias décadas e deram início às grandes companhias artísticas dos séculos XVII e XVIII, na Inglaterra.
Adeptos do nomadismo criaram seus espetáculos para sobreviver e se espalharam, transformando-se nos precursores de uma cultura, chamada Mambembe.

De acordo com o pesquisador teatral Décio de Almeida Prado, alguns grupos mambembes chegaram por volta de1574 ao Brasil. Ele observa que eram, em maioria, ciganos e ateus que fugiam da Inquisição Católica.
Estes remanescentes dos grupos europeus traziam consigo espetáculos de variedades e literalmente carregavam a casa nas costas. E não só a casa: os cenários das peças, seus figurinos, maquiagem, etc.

Os saltimbancos andavam em carroças e sempre em bandos - as trupes. É a essência de uma cultura e um novo jeito de viver e contestar. Dessa necessidade de mudar e representar cria-se várias formas de espetáculos.
Décio de Almeida relata que no séc. XIX surgem desta cena histórica o circo, as Caravanas de Teatro e os movimentos de Arte Alternativa do século XX.

Living Theatre: Uma esperança, uma ameaça.

Na primeira metade do século XX eclode um processo de contracultura no mundo, principalmente nos Estados Unidos e Europa.
O Brasil absorvia as idéias subversivas que vinham do outro lado do Atlântico, ao mesmo tempo em que promovia uma arte nacionalista, inspirada nos intelectuais da Semana de Arte Moderna de 1922, cujas idéias ainda pairavam no ar.

"Os conceitos da contracultura abordavam a aceitação das diversidades culturais e rejeitavam a padronização dos valores, promovendo a Arte Mambembe. Considerando primordial a interação com os expectadores, a liberdade do pensamento político-social e a libertação sexual". É o que diz o secretário de Identidade e Diversidade Cultural, do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti.

Ele conta que naquele tempo o Brasil possuía grupos de vanguarda no teatro - como as caravanas de Procópio Ferreira e Tônia Carreiro - que buscavam mudanças na linguagem e na forma teatral. Durante as décadas de 50 e 60 eram promovidos festivais, oficinas e discussões.
"Mambembar, ou viajar com Companhias Teatrais, pelo interior tornou-se comum. Nesse contexto desembarca no país no início da década de 70, em plena ditadura, o Living Theatre, o maior grupo mambembe da época", exalta Mamberti.

A escolha do nome remonta o ano de 1947. A vida enquanto arte, um teatro Vivente, foi isso que pensaram seus fundadores, Judith Malina e Julian Beck. O living inaugurou o movimento do teatro off-Broadway, como uma alternativa artística ao teatro comercial da Broadway.

Sérgio Mamberti relata que o grupo chegou aqui com uma visão lisérgica da política. E visualizavam o Brasil como um país com perspectivas de futuro. Mamberti já era ator e morava em São Paulo, onde conheceu os integrantes do Living e chegou a hospedar quatro deles em sua casa.
"Minha casa virou um ponto de encontro dos artistas que estavam em São Paulo. Todos queriam conhecer Beck e sua trupe. Aconteciam reuniões, pequenas apresentações e muito bate papo", diz Mambeti, com saudosismo.

Segundo Mamberti, Beck chegou a lhe dizer que toda fonte de repressão se deriva da repressão sexual e eles vieram ao Brasil propor a libertação sexual.
Mamberti - Mas quando o encontrei pela primeira vez e dei-lhe um beijo na boca ele horrorizou, pois não esperava tamanho atrevimento da minha parte -, Beck apesar de chocado gostou do jeito caloroso do povo brasileiro, tanto que o grupo incorporou alguns atores ao elenco, como Paulo Augusto de Lima e Ilion Tróya.

Tróya cursou Ciências Sociais e ainda hoje participa de movimentos artísticos no Brasil e EUA. Em entrevista por email ele contou que recomendados por amigos do Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez, o Living mudou-se para Ouro Preto em março de 1971, com uma vaga esperança de participação no Festival de Inverno.
Mas como não foi viável, financeiramente, participar do festival, planejaram atuar paralelamente e representar em praça pública, um espetáculo/oficina de teatro sobre a estrutura social do sistema capitalista.

"Fizemos um projeto, intitulado O Legado de Caim, que se iniciou em São Paulo e tratava da herança de violência a qual todos somos sujeitos, no intuito de encontrar possibilidades de libertação", conta Troya.
Eles queriam atingir, por meio de uma estratégia cultural, os vários extratos da sociedade, envolvendo, sobretudo estudantes, artistas e trabalhadores, numa campanha de "invadir docemente" uma cidade e despertar seu povo para diversas ações que estimulassem diálogo nas praças sobre os temas levantados..

A campanha do Legado de Caim seguia adiante. No entanto, tudo se interrompeu bruscamente no primeiro dia do Festival de Inverno, com a prisão da companhia inteira na casa que haviam alugado detrás da Igreja de São Francisco.
Segundo Tróya o departamento de ordem política e social (DOPS), o braço forte do regime militar, invadiu a casa em busca de armas ou outros materiais subversivos. "Nada mais encontrando além da farmácia pessoal de cada membro de uma companhia de 20 pessoas. Enquanto permanecemos presos em Belo Horizonte, na casa em Ouro Preto, sob custódia policial, foram encontrados 2 quilos de maconha, dois dias depois", relembra Tróya.

Ilion Tróya fala que no dia em que o DOPS (hoje DEOESP) os conduziu até o Tribunal com aquele povo todo, reunido para o Festival, que veio acompanhar as audiências constituiu talvez o "espetáculo" mais vivo do Living Theatre no Brasil.
Os Diários da Prisão de Judith Malina começaram a ser publicados no jornal O Estado de Minas. No Brasil e no mundo a reação foi imediata, pessoas como Jean-Paul Sartre, Jean Genet, Samuel Beckett, Pier Paolo Pasolini, Bernardo Bertolucci, Arthur Miller, Alan Ginsberg, John Lennon e também Ruth Escobar, Sérgio Mamberti, Vivien Mahr, Martha von Jentschick e outros lutaram pela libertação dos atores.

O último espetáculo da companhia Living Theatre no Brasil foi montado na Colônia Penal em Ribeirão das Neves, "Sonhos dos Prisioneiros" (1971), que foi feito a partir de textos escritos por alguns dos "companheiros de infortúnio" como eles costumavam se considerar. Logo chegou a ordem de expulsão da companhia, assinada pelo presidente Garrastazu Médici, e assim eles partiram de volta aos EUA.

Judith Malina e Hanon Reznikov, seu atual esposo e co-diretor da companhia, continuam o trabalho do Living. "Neste momento estamos ensaiando a remontagem da peça "The Brig", com que pretendemos inaugurar nesta primavera, um novo espaço do Living Theatre em Nova York, no endereço 19-21 Clinton Street (Houston e Stanton Streets) em Manhattan, neste ano em que comemoramos os 60 Anos da nossa fundação, pois o espetáculo não pode parar", completa Ilion Tróya.

Um comentário:

Joao Reis disse...

Esse artigo é ainda melhor na releitura. Eu queria que mais textos fossem produzidos com a "fuçassão" que você apronta pra produzir um bom texto.

Abração!