Mais um burocrata atravessa a rua, um bom dia é a chave para abrir as portas da consciência, José Bonifácio, 85 anos de pura sapiência.
Entre as árvores e os muros de concreto da Zona Sul da Capital mineira, o puxador de carroça de papel desbrava a Cidade Viva que dorme debaixo da poeira de asfalto.
O descendente de italianos, com seus olhos pequenos, côr de céu, leciona sobre a metáfora da realidade e coloca a memória como fonte vital para a existência humana.
"O único e verdadeiro elo entre a vida e a morte é a memória, ou a consciência de qual papel representamos para a sociedade e para nós mesmos, pois a lembrança do que sou é a única prova de minha existência", comenta o velho caçador de papéis.
E ele segue o caminho da verdade que escolheu. E eu fico com mais este feixe de luz que não posso tocar sem me queimar, e me queimo. Perceber que o valor de cada instante constrói o conjunto de acontecimentos que dá forma aos nossos pensamentos e procedimentos é essencial.
Acreditar que o mundo está apto a nos receber de braços abertos é ilusão. Praticar as verdades nas quais acreditamos é um bom começo, pensar e falar e fazer, e se não formos reconhecidos, mesmo assim, teremos a serenidade do Herói com o dever cumprido, mesmo a morrer com o gosto da vitória na garganta.
Saulo Martins – 28/01/2008 – Belo Horizonte
